A Representatividade que queremos

A Representatividade que queremos

Confesso que me senti presa à espiral do silêncio por algumas semanas. Tirei um tempo para assistir o circo pegar fogo e analisava as opiniões jogadas livremente ao Twitter enquanto o caso da Vaevictis tomava proporções cada vez maiores – tanto na comunidade quanto na imprensa.

Por algum tempo, guardei minhas palavras no que diz respeito à execução da representatividade feminina no cenário de League of Legends. Hoje decidi externar minha opinião sobre como acredito que as coisas poderiam progredir de forma mais efetiva.

O conceito de representatividade, ao meu ver, não está sendo propagado e nem exercido da melhor forma no nosso cenário.


O caso Vaevictis:

É possível que muitos de vocês já conheçam a história da Vaevicts eSports, organização russa criada no segundo semestre de 2015, que após não conseguir vender sua vaga na disputa, trouxe à LCL a primeira lineup exclusivamente feminina a competir em um torneio oficial da Riot Games.

O elenco formado por Diana “TR1GGERED” Roman no top, Aida “Merao” Kazarjan na jungle, Lenotsjka “VioletFairy” Koval no mid, Ksyusha “Trianna” Mescheryakova como ADC, e Natalia “Ankote” Kotova no suporte, deu o que falar nas últimas semanas.

Vaevictis Trianna
Ksenia “Trianna” Mescheryakova, atiradora da Vaevictis Esports.

A aposta em uma equipe inteiramente formada por meninas pode ter sido um modo de apoiar e encorajar mulheres ao redor do mundo a seguirem correndo atrás de seus sonhos no meio esportivo de League of Legends; continuarem trabalhando e construindo suas carreiras nesse segmento.

Mas por mais motivadora que seja a mensagem, a dúvida que fica é, as jogadoras que compõem a lineup da Vaevictis são Diamante (I – IV), disputando contra jogadores de elos mais altos e mais experiência no meio (até porque eles integram times de grande nome na região); até que ponto a inserção delas em uma organização que está na posição de um dos oito times de elite do Campeonato dos Estados Independentes pode ter sido uma estratégia de marketing, visto que cada dia mais as mulheres estão engajadas nesse meio?

O que, além da simbologia da presença delas como mulheres ali no stage, justificaria a escolha daquelas jogadoras e a formação daquela lineup?

A resposta pode ser a união do útil ao agradável, uma vez que embora isso fosse movimentar mais público, gerar interesse de mais espectadores ao vivo e trazer mais views aos VODs, é uma iniciativa que traz às mulheres do cenário esperança. É uma participação que – apesar do resultado – entra para história por ser a primeira. Não é algo que, ao meu ver, ajuda o cenário a evoluir. Não é uma experiência que eu creio que agregue algo para as meninas que estavam lá, que participaram disso, que fizeram parte da história que estamos escrevendo, mas ainda assim o papel delas ali teve um propósito.

Cinco suportes banidos: Machismo na partida Vaevicts vs. RoX?

No que diz respeito ao jogo em si, elas claramente não estavam preparadas. Jogo de estreia, jogadoras novas, não habituadas com grandes confrontos em stage, elo baixo e uma audiência de peso. Já é de se esperar um baque.

Times posicionados, grande expectativa; durante os picks e bans os meninos se entreolhavam e davam risada. Primeiro ban, Nami. Segundo ban, Janna. Seguido por Lulu, Braum e Thresh; o que deu margem para a interpretação daquele velho ditado que assombra as meninas que integram o cenário “mulher só sabe jogar de suporte”, e isso foi visto pela comunidade como falta de respeito.

“As meninas riram também!” Sim, elas riram. Riram nos picks e bans, riram durante a partida, durante os stomps – não sabemos se foram risos de nervoso, se eu estivesse lá eu não saberia como reagir, acredito que eu daria risada também.

Os meninos, pelo nível de jogo deles, por experiência, por diferença de elo, já tinham como vencer, então banir todos os suportes de uma vez dava a entender que as meninas não apresentavam ameaça para eles. Logo, se visto por esse prisma, pode ser considerado como uma afronta e uma forma de humilhação.

Sabendo o que aquela partida representava para as mulheres ao redor do globo, poderiam dar a elas a chance de participar de forma digna. Quer banir suporte? Tudo bem, normal. Banimentos são livres, mas não precisa tirar cinco, tira três.

Os meninos foram advertidos por infringirem a cláusula 10.2.4 do Regulamento da Temporada, que diz “membros das equipes não podem ofender a dignidade ou integridade de um país, pessoa ou um grupo de pessoas por meio de palavras ou atos de desprezo ou ações de raça, cor de pele, etnia, nação, origem social, gênero, língua, religião, opinião politica ou qualquer outra opinião, status financeiro, idade ou qualquer outro status de orientação sexual”. Uma vez que a empresa (Riot Games), a organização da LCL e a comunidade enxergaram através do ato do banimento de cinco suportes uma forma implícita de debochar ou ofender um grupo a fim de deixar subentendido que mulheres só sabem jogar de suporte, a atitude pode ser punida com base na cláusula.

O espírito esportivo, visto por esse prisma, deixa implícito que exatamente por estarem em um elo mais baixo elas deveriam ser tratadas com mais cuidado, mas ao mesmo tempo eu me pergunto se as circunstâncias devem ser facilitadas para as mulheres só pelo fato de serem mulheres, e a resposta que me vem à mente é “não”.

Diana "Tr1ggered" Ivanchenko
Diana “TR1GGERED” Ivanchenko, suporte da Vaevictis Esports.

É uma competição, não é? Uma disputa de região. São times de elite jogando. Não é brincadeira. Vocês querem que mulheres sejam erguidas pelo simples fato de serem mulheres, ou vocês preferem que o cenário de fato evolua de forma que cada uma delas mereça estar lá independente do seu gênero?

O conceito distorcido de representatividade feminina:

A raiz do feminismo expressa claramente a crença de que as mulheres devem ter os mesmos direitos, poderes e oportunidades que os homens, e por isso devem ser tratadas da mesma maneira.

A competição deveria ser de igual para igual. A inserção delas ali simbolicamente é uma distorção do conceito de representatividade, uma vez que a meritocracia não é usada como critério base: Elas não chegaram até lá, elas foram colocadas. Elas não tem um nível tão alto quanto o dos outros players que compõem as outras equipes, logo, qual o ponto?

A igualdade de oportunidade existe para que você tenha a chance de mostrar, seu esforço e talento; mas a inserção direta em um posto de destaque que não foi conquistada por mérito – ser colocada no topo apenas para gerar a falsa ideia de representatividade – eu não concordo.

Se a vontade é se tornar jogadora profissional, a pessoa em questão deve agir como uma. Existem 143 campeões no jogo; alguns estão mais fortes no Meta, outros não, mas um jogador profissional deve estar preparado para tudo – isso inclui tanto as mudanças quanto a postura resiliente frente às afrontas e possíveis tentativas de abalo emocional provenientes dos confrontos, certo?

Minha dúvida é, por que com as meninas devem pegar mais leve? Isso não é só sobre os cinco suportes banidos; isso é sobre o estardalhaço que é feito a partir de algo que embora tenha sido uma alfinetada não deveria mais doer porque nós somos melhores do que isso. Se o ditado não procede, se a carapuça não serve, por que se doer? Por que não usar disso pra mostrar justamente o contrário?

Por que não com as suas próprias jogadas, com as suas estratégias e qualidade de gameplay você revidar com um “você veio tentar me desmoralizar mas agora eu vou te destruir”?

Mão feminina sobre teclado

Honestamente, acredito que não tem a ver exclusivamente com machismo, mas com o uso distorcido do feminismo, que poderia ser exercido de um jeito diferente no nosso cenário.

Igualdade vs segregação: A importância do conteúdo criado por mulheres para mulheres dentro do cenário:

“A segregação só reforça a ideia de desigualdade”, logo, você pode achar que criar um conteúdo exclusivo restrito ao gênero não faz o menor sentido para quem busca a evolução de uma região e o aprimoramento de um grupo.

Os meninos exploram a Summoners Rift “desde que tudo ali era mato”. Eles têm muito a nos ensinar mas ainda assim existem mulheres que se sentem mal em perguntar, expôr suas dúvidas e assim mostrar que não dominam determinadas áreas. Não são todos, mas existem homens que debocham do fato de algumas meninas não conhecerem o básico; o conteúdo didático disponível é escasso, e o auxílio é pouco para nosso aprimoramento.

Sendo assim, o conteúdo criado por mulheres direcionado à mulheres dá a ideia de pertencimento para quem é novata, pra quem não domina o assunto mas tem interesse em melhorar.

Eu adoraria ver ambientes mistos sendo criados – em todos os esports, não só em League of Legends – onde as mulheres pudessem se sentir mais confortáveis. Imagine poder treinar meninas que não tem experiência mas apresentam grande potencial, garra, vontade de fazer parte disso, sendo treinadas para de fato competir e integrar lineups mistas – não por serem mulheres, não por existir um movimento que reivindica a representatividade e a participação – mas porque nós trabalhamos todos juntos e enfim as mulheres tem um lugar lado a lado com os homens no esport.

Acredito que com ambientes assim e com a base necessária a chance de termos mais mulheres pro-players seria muito maior. O conteúdo mulheres para mulheres é interessante num primeiro momento, mas o trabalho em conjunto de homens e mulheres é o que, ao meu ver, trará a evolução efetiva de uma região de forma igualitária.

  1. Análise muito boa!!! Explicou todo o caso com argumentos sólidos de mais de um ponto de vista, apresentou opinião da autora e ainda deu margem para que o leitor tirasse suas próprias conclusões. Amei esse texto.

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