Autópsia de um gigante – paiN Gaming

São Paulo, 11 de Março de 2018. A RED Canids vence a paiN Gaming por 2 a 0. O resultado cementa o rebaixamento da equipe bi-campeã brasileira, que terá de disputar o Circuito Desafiante no 2º split de 2018.

Entre os jogadores, a sensação de tristeza e impotência. O choro de Murilo “takeshi” Alves foi mais amargo do que nunca, afinal a sensação de ser rebaixado não se compara com as finais de campeonato que ele perdeu durante sua carreira. Por parte da torcida, uma mistura de raiva e melancolia. Sentimentos muito diferentes, mas que resumem o desapontamento com o resultado. Até mesmo as mensagens de apoio dos fãs mais otimistas tinham um pingo de decepção.

Assim como um médico legista, deixarei a comoção e os sentimentos dos entes queridos de lado e identificarei os fatores que levaram a organização ao rebaixamento automático.

Murilo “takeshi” Alves

Quando falamos sobre role swaps, os nomes de Go “Score” Dong-bin e Kang “Ambition” Chan-yong são os mais mencionados. Entretanto, o sucesso após sua troca de posição veio através de uma longa e dolorosa jornada. Além de tudo, é comum ignorarmos trocas de rota que falharam completamente como nos casos de Enrique “xPeke” Cedeño Martínez e Christopher “Zuna” Buechter.

Com isso em mente, não é de se surpreender que a transição de takeshi impactou o resultado da paiN Gaming nesse torneio. A primeira dificuldade encontrada foi a champion pool. Durante as primeiras semanas, o capitão utilizou o Ornn 4 vezes e teve 1 jogo de Gnar. Na semana 3 a escolha de Gnar continuou, agora ao lado do Vladimir. Depois da pausa do carnaval o veterano fez sua estreia com o Gankplank e a chegada do 8.4 revelou seu Sion, Shen e Cho’Gath. No conjunto da obra a pool parece vasta, mas a linha do tempo conta uma história diferente. Ficou claro que o jogador precisou aprender muitos desses campeões ao longo do split enquanto seus oponentes já estavam familiarizados com eles, colocando a equipe rubro-negra em uma grande desvantagem.

Os problemas de takeshi na laning phase eram naturais e esperados, porém o maior obstáculo encontrado por ele surgiu apenas no final do campeonato. A volta do meta de tanks expôs a sua inexperiência em cenários de iniciação corpo-a-corpo e posicionamento na linha de frente. Isso pôde ser percebido nas mortes bobas em teamfights e nas estatísticas: em cinco partidas disputadas nos patches 8.1, 8.2 e 8.3 ele morreu, em média, 1.8 vezes por jogo; o mesmo número sobe para 2.6 ao consideramos as semanas jogadas no 8.4.

Rodrigo “Tay” Panisa:

Não é a primeira vez que Tay é alvo de críticas. Após a final da 2ª Etapa do CBLOL 2017, muitos fãs o consideraram o elo fraco da paiN Gaming e tenho certeza que boa parte dessas pessoas colocam a culpa do rebaixamento da organização rubro-negra em suas costas. Ao meu ver, o seu desempenho foi um dos problemas da equipe no Mineirinho, porém os críticos não reconhecem a importância da sinergia entre Rodrigo e seus companheiros, um fator crucial na caminhada do time até Belo Horizonte.

As forças de Panisa giram em torno de auxiliar seus aliados em match-ups desfavoráveis e ajudá-los a ter bons timings de compra durante a laning phase. Ele não é um caçador capaz de dar snowball em uma partida como Alanderson “4LAN” Meireles. Ele não é um jogador que utilizará a vantagem de seus laners para neutralizar o oponente como Gabriel “Revolta” Henud fazia no auge de sua carreira. Ele é um habilitador, não um playmaker.

Agora, caro leitor, tente imaginar as dificuldades de Tay ao longo da temporada. Criar vantagens no topo era um desafio, afinal takeshi estava estreando na posição. Já no meio, a semelhança entre Thiago “tinowns” Sartori e Gabriel “Kami” Santos não foi o suficiente para formar uma dupla entrosada como em 2017. É claro que seu estilo tem muitas fraquezas, mas a paiN sabia delas e não as levou em consideração na hora de montar a line-up.

Thiago “tinowns” Sartori:

Ao contrário de Tay, poucos torcedores reclamaram do desempenho do tinowns. Entretanto, o jogador mostrou algumas fraquezas ao longo do split e aqui no eInsider ninguém está livre de críticas.

Durante essa temporada, os picks mais comuns no meio foram Ryze, Azir, Galio e Taliyah. Thiago não jogou com a tecelã de pedras, utilizou o mago rúnico somente uma vez e a taxa de vitória do seu colosso foi de apenas 25%. Apesar das identidades totalmente distintas, esses campeões compartilham duas características: no início do jogo eles podem impactar suas side lanes e sua transição para o mid game é feita na lateral do mapa, fazendo a formação de 1-3-1. A baixa prioridade nessas escolhas tornou a paiN previsível no draft e também na Summoner’s Rift.

Ainda assim, é preciso elogiar as atuações de Sartori com champions menos móveis no mapa, mas que se destacam em cenários de skrimishes e teamfights. O jogador teve boas performances de Azir e, mesmo com o rebaixamento, provou que tem nível para continuar no CBLOL.

Pedro “Matsukaze” Gama:

Ao lado de tinowns, Matsukaze fez parte de uma das melhores backlines do Brasil e assim como seu companheiro de time, o atirador teve problemas com o metagame de 2018. Gama não conseguiu ser tão eficiente ao jogar de Xayah e Tristana, mas suas excelentes atuações de Ezreal e Caitlyn foram essenciais para as poucas vitórias que a paiN conquistou ao longo do split.

O jogador sofreu um pouco durante a laning phase. Esse problema foi causado pela combinação de três fatores: o estilo de jogo exageradamente defensivo, a baixa familiaridade com alguns dos campeões do meta e a má fase de seu support. E já que estamos falando dele…

Caio “Loop” Almeida:

Ao meu ver, as atuações de Loop nessa temporada são um reflexo de todos os problemas dessa line-up que a paiN Gaming formou. A saída de Matheus “Mylon” Borges ao lado da manutenção de Tay promoveu o suporte ao cargo de iniciador principal do time.

Desde sua volta em 2017, Almeida mostrou sua grande capacidade de proteger seus carries e acompanhar o engage de seus companheiros, apesar disso suas habilidades como iniciador nunca se destacaram. Sim, esse foi o pior split de sua carreira, mas é necessário contextualizar o acontecimento. O meta de tank supports e a sua nova função impactaram sua performance e esses dois fatores não dependem somente do jogador, mas do sistema que seu time utiliza e do desenvolvimento da equipe por parte da comissão técnica.

Por que a paiN foi rebaixada?

Maioria desses jogadores se mostraram capazes individualmente e serão cobiçados por organizações do CBLOL durante a off-season. Com isso, podemos eliminar a hipótese que essa line-up não tinha talento suficiente.

Diferente da KaBuM em 2017, a paiN mostrou uma ótima estrutura e recrutou a maior comissão técnica do CBLOL. Independente da qualidade dos treinadores contratados, podemos dizer tranquilamente que o time teve boas condições para trabalhar ao longo do split.

O maior problema, na minha opinião, foi a formação do elenco. Vamos considerar que Tay, Loop e Mastukaze são peças indispensáveis. Que tipo de jogador esse time precisa? A resposta é fácil de falar e difícil de fazer: a combinação de um carry para não sobrecarregar Matsukaze e um iniciador para preencher o vazio que Mylon deixou.

A contratação de tinowns resolveu uma parte do problema, mas takeshi não tem experiência suficiente para ser o top laner que eles procuravam. Eles precisavam de alguém para iniciar as teamfights de maneira precisa e decisiva, garantindo vitórias em lutas importantes durante uma partida. Não é a toa que esse time está em 2º lugar no ranking de jogos mais longos. Eles tem jogadores individualmente talentosos que são capazes de atrasar o avanço de seus oponentes, mas não tem a proatividade necessária para converter suas vantagens em vitórias de maneira constante.

Pessoalmente, espero que esses jogadores deem continuidade em sua carreira e que a paiN tenha aprendido a lição. Nomes de peso e habilidade individual são o suficiente para ganhar alguns mapas, mas o sucesso só é possível com a formação de uma equipe equilibrada e um bom sistema de jogo.

“Não desista. Sofra agora para viver o resto de sua vida como um campeão” – Muhammad Ali.

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