Entrevista com Peter Dun: Os problemas do CBLOL

Entrevista com Peter Dun: Os problemas do CBLOL

[Nota da redação] Fizemos uma carta de retratação ao público e ao Peter sobre os erros cometidos durante os últimos dias em relação a essa entrevista. Ela pode ser lida aqui.

***A RED Canids foi contatada pela redação do eInsider para enviar seu direito de resposta, que será publicado aqui assim que enviado. Em nota não oficial, Felippe Corradini, CEO da RED Canids, publicou o seguinte texto no TwitLonger comentando os casos citados,  respondido em seguida por Peter no seguinte texto no TwitLonger (em inglês).


Peter Dun é um treinador de League of Legends competente e bem-sucedido. Trabalhou na China, teve uma passagem vencedora no Brasil e atualmente defende a Splyce no EULCS. Na Europa, foi nomeado o melhor coach do primeiro semestre de 2018 e levou sua equipe aos playoffs nas duas etapas desse ano.

Há alguns dias, Peter e eu conversamos por Skype e falamos sobre vários assuntos relacionados ao CBLOL. Durante o bate-papo, abordamos temas como o fracasso da KaBuM, sua experiência no Brasil e as performances abaixo do esperado de nossas esquadras em torneios internacionais.

Nessa entrevista, o britânico nos dá a chance de conhecer um pouco dos bastidores do cenário competitivo. Ele nos mostra como é tolo colocar toda a culpa na conta dos jogadores e a grande responsabilidade que as organizações e comissões técnicas devem cumprir. Ele menciona a construção de um “ciclo virtuoso”, uma lição que pode ser aplicada no cenário brasileiro de LOL e também em nossas vidas profissionais e pessoais.

Peter Dun, vencedor do prêmio “Melhor Coach do Split” na primeira etapa da LCS europeia 2018

As pessoas têm apontado dedos, procurando quem culpar pelas performances decepcionantes dos times Brasileiros em torneios internacionais. Escrevi um artigo no qual confronto o TwitLonger do Ranger, em que ele infere que o problema é a cultura brasileira e a falta de comissões técnicas realmente boas. Eu refuto essas ideias e afirmo que é a cultura dos jogadores, não a do país, que está no centro do problema.

Quanto disso você considera verdade?

“Primeiro temos que falar sobre onde o Brasil está [geograficamente]. O Brasil não consegue treinar com times de regiões maiores. Uma desvantagem que apenas os servidores LAS e OCE compartilham. Os japoneses podem treinar com times da LMS. Vietnamitas treinam com times Chineses, às vezes também com times da segunda divisão da Coréia, às vezes com times da LMS. Turcos e Russos treinam frequentemente contra a EU LCS e times do servidor LAN treinam com times da NA LCS. Primeiramente, o Brasil tem a desvantagem de não ter polinização cruzada de ideias com outras regiões. A única maneira de trazer novas ideias ao cenário é com bootcamps no exterior ou trazendo comissões técnicas estrangeiras. De um lado, isso significa que o Brasil consegue formar suas próprias ideias rapidamente. Por exemplo, o Brasil foi mais rápido do que o EU e o NA na percepção de que utilizar magos na rota inferior era melhor. O ponto negativo é que inovação estratégica não chega ao país tão rapidamente. Isso significa que frequentemente indivíduos de fora do país acabam sendo o gatilho que leva à inovação estratégica.

“A vantagem que o Brasil tem é sua torcida populosa e apaixonada. Os brasileiros tem uma solo queue de qualidade com ping baixo, o que significa que os jogadores conseguem treinar produtivamente na solo queue. Isto significa que jogadores da solo queue no Brasil tem boas mecânicas, mais próximas ao nível de regiões maiores do que do nível de regiões emergentes. A outra vantagem que o Brasil tem é mais atenção do público internacional do que outras regiões menores. Emily Rand, por exemplo, uma das melhores jornalistas do esport, escreve sobre o Brasil com frequência. Não toda semana, mas talvez uma vez por mês, ou a cada dois meses. Então o Brasil desfruta de visibilidade no exterior.

“Mas há outra desvantagem para o Brasil. Por várias razões, seja economia ou finanças, times brasileiros não pagam tão bem quanto outras regiões. Fiquei no Brasil por dois anos e por ficar no Brasil abri mão de 90%-95% do que poderia receber na China ou em outras regiões. Abri mão disso porque estava interessado em trabalhar no Brasil e ajudar o BR a crescer como região. Mas não é algo que deve se esperar de alguém que acabou de começar sua carreira nos esports e está buscando consolidar seu nome no cenário. A diferença seria de 20 vezes o salário, mesmo que eu fosse trabalhar na segunda divisão da Europa. Portanto no Brasil, os incentivos financeiros não são suficientes para atrair talento do exterior, apesar de que talento estrangeiro é necessário para o crescimento da região por causa dos obstáculos geográficos. Então acho importante entendermos que esta é a situação em que o Brasil se encontra.

“Mas, respondendo sua pergunta, isto significa que, para obter sucesso, o Brasil precisa se expor a influências exteriores, seja trazendo membros de comissões técnicas internacionais, ou fazendo um bootcamp no exterior. Obviamente, isto é caro e o Brasil não é tão rico como outras regiões. É necessário o Brasil investir em trazer, por exemplo, coaches coreanos ou europeus, algo assim, mas não há o incentivo financeiro para fazê-lo.

“Ou você tem que melhorar a região como um todo, certo? Se você puder fazer a região como um todo melhor, com estes jogadores com boa mecânica que jogam com ping baixo na solo queue brasileira… Nada importa sobre as Keyds, KaBuMs ou nada desse tipo, se você consegue ajudar a liga como um todo, times como IDM (RPG), Pro Gaming, Operation Kino. Estes times são times que tem a força e o conhecimento para garantir que o cenário não está dependendo de um pequeno grupo de times, para rotacionar ideias e para ajudar a região como um todo progredir.

“Afinal, digamos que você é um time 6/10, mas sua região é 2/10. Você não tem como melhorar, é impossível melhorar. Você pode vencer todos os seus treinos e jogos contra estes times 2/10, mas você não vai melhorar. Na verdade, é possível que você piore, se adquirir hábitos que te ajudam a vencer estes times ruins mas não ajudariam a vencer um time 8/10. Agora imagine que você, como um time 6/10, ajudou sua região a chegar a um nível 4/10 ou 5/10. Agora, já que você está treinando contra times 4/10 ou 5/10, você pode melhorar e chegar a ser um time 7/10. Talvez sua chance de vencer o CBLOL é menor agora, mas isto significa que quando você for a um torneio internacional, você estará melhor equipado para ter sucesso, porque está praticando diariamente com times que têm força. Isto é algo que acredito que muitas estrelas e muitos times não entendem, que isto é o que o Brasil precisa para alcançar o sucesso.

“Eu posso dar um exemplo disso. No Mundial de 2016, a INTZ fez vários bootcamps durante o ano. Eles tinham o Alex [Abaxial], que é americano, tinham a mim, britânico que trabalhou na China, e portanto muito investimento foi feito em bootcamps e ajudando o time a melhorar, para que pudessem ser o melhor time que conseguiam ser. Porém, ao mesmo tempo, depois do fim do CBLOL, a INTZ ficou presa por uma semana e meia no Brasil, sem poder ir aos EUA para treinar. Então a paiN Gaming, que estava de férias, percebeu que era importante para a região que a INTZ jogasse bem no Mundial. Portanto, eles sacrificaram tempo de suas férias para treinar com a INTZ, para que a INTZ estivesse preparada para o torneio. Isto é algo que a INTZ fez pela RED Canids e pela Keyd antes da final da primeira etapa do CBLOL 2017, e é algo com o qual a INTZ ajudou bastante a RED Canids durante o MSI 2017, pois perceberam que uma boa atuação era importante para o cenário. Mas isto é algo que novas organizações não entendem, e o Brasil precisa entender isso se quiserem melhorar.”

A INTZ de Peter Dun

Então você acredita que auto sabotagem por causa de organizações brasileiras mais novas é a razão central do problema?

“Eu tenho que ser cuidadoso ao falar disso, porque obviamente eu não sei os detalhes internos de todas as organizações no Brasil. Eu sei apenas pela minha experiência no país que times como a paiN Gaming sempre ajudaram outras equipes da região. A INTZ tentou fazer o mesmo em 2017. Mas… Apesar de que não quero citar organizações específicas, acho que é válido falarmos sobre a RED Canids como org, pois a RED Canids em 2017 representou tudo que eu vejo de errado com o cenário brasileiro e o porquê de a região não conseguir progredir.

“Na sétima temporada, me comprometi a um segundo ano com a INTZ, apesar de que eu sabia que o elenco não seria tão forte e precisaria de tempo para se desenvolver. Tínhamos um plano para progredir e nos classificar para o Mundial. Não conseguimos fazer isto, mas sabíamos que precisávamos de tempo para melhorar. Parte do meu acordo com a INTZ me permitia ajudar outros jogadores na região durante meu tempo livre, até três vezes por semana. Mesmo que trabalhassem para outras equipes, mesmo que fossem novatos. A ideia era que isto ajudaria a região como um todo, e no final ajudaria a própria INTZ a melhorar mais rápido, apesar de que isso tudo poderia levar a uma desvantagem estratégica em partidas do CBLOL. O problema é que este sistema só funciona se todas as equipes estão dispostas a colaborar. Foi o que a RED não fez no ano passado. A INTZ ajudou vários times, incluindo a RED Canids. A própria RED reconheceu publicamente que a INTZ sacrificou tempo de férias para ajudá-los. Nossa comissão técnica, nossos olheiros, psicólogo esportivo. Todos fomos dados acesso livre e ajudamos como podíamos, porque seria bom para o Brasil se a RED Canids se saísse bem no MSI.

A RED Canids representou o Brasil no MSI 2017

“Mas vamos falar sobre como a RED reagiu a este tipo de abordagem. A RED Canids foi convidada para o IEM depois da primeira etapa de 2017. Eles recusaram o convite, mas atrasaram a resposta até o último minuto possível, para que outras equipes brasileiras não pudessem ser convidadas e usufruir da experiência internacional que a RED abriu mão para focar no CBLOL. No final das contas, Hong Kong Attitude ficou com a vaga que seria de um time brasileiro, e isto é um exemplo da RED Canids sabotando oportunidades para outros times da região.

“Depois disso, podemos dar uma olhada no que aconteceu na segunda etapa de 2017. Para a fase eliminatória, a INTZ ia fazer um bootcamp, mas tivemos problemas com o passaporte de um dos nossos jogadores, e como era uma época difícil de se conseguir um passaporte, não pudemos ir. Porém, uma semana antes das semifinais, a RED voltou de seu bootcamp. Eles ouviram que eu estava no hospital por intoxicação alimentar e, duas horas antes do nosso primeiro treino, cancelaram todos os treinos marcados para aquela semana. Mais uma vez, uma tentativa voluntária de sabotar a performance de outro time, pois é claro que àquele ponto não poderíamos marcar treinos com outra equipe, e esperávamos treinar com eles três vezes durante aquela semana. Não culpo nenhum dos jogadores ou da comissão por isso, trabalhei com muitos deles e é inconcebível que promoveriam cancelamento de treinos. ***

“O propósito de sabotar era diminuir a qualidade dos times da região, para que pudessem vencer com facilidade o CBLOL. Mas isto significa que quando você comparece a torneios internacionais, você não consegue fazer seu melhor pois não está treinando tanto quanto pode. A parte mais triste disso é que, ao final da temporada, quando estava saindo da INTZ, conversei em particular com todos os meus jogadores, e um deles me disse que sabia que a situação com a RED Canids aconteceria. O perguntei o motivo de não me impedir de trabalhar com outros times e ajudar jogadores se ele sabia que aconteceria, e ele me disse que pensou que talvez pudesse ser diferente dessa vez, por causa de tudo que estávamos fazendo pelo cenário.

“Esta é minha lembrança eterna do Brasil. Eu não penso muito nas coisas boas, nos pontos positivos ou no sucesso com a INTZ em 2016. Eu me lembro de como decepcionei meu time e minha comissão na sétima temporada para tentar ajudar a região a evoluir como um todo e em como outro time não estava focada em ajudar a região, mas apenas eles mesmos. Foi uma crença tola, que organizações ajudariam umas às outras do jeito que as ajudamos, ao invés de sabotar os adversários.

“Mas acho que isto mostra o problema. Você só pode ter um ambiente em que todo mundo se ajuda se todos investirem nisso. Isto é algo que a paiN fez pela INTZ e a INTZ fez por outros times. Mas se você tem outras equipes absorvendo esta ajuda enquanto fazem tudo que podem para evitar que isso se torne um processo mutuamente benéfico, se torna extremamente difícil melhorar a região como um todo. E se o Brasil não está disposto a melhorar como um todo, se as equipes estiverem dispostas apenas a beneficiarem a si mesmas, a única maneira de melhorar é com um enorme investimento financeiro que compense o isolamento geográfico. Na Turquia, times podem pagar salários altíssimos, alguns jogadores da TCL recebem melhor que jogadores da EU LCS. Eles conseguem atrair estrelas, tanto na comissão como jogadores que estão no topo do mundo em suas funções. Jogadores como GBM, Frozen. Talvez não sejam tão bons como Faker, mas são talentosos. E Frozen, quando chegou à TCL, foi uma grande vantagem para o Fenerbahce na época. Estes são jogadores que você não atrai sem incentivos financeiros.

“Portanto sem o dinheiro, tudo se resume a melhorar a região como um todo. Os sucessos do Brasil no passado vieram em tempos em que times entendiam a importância de comportamentos mutuamente benéficos. INTZ e paiN venceram Flash Wolves e EDG em Mundiais não porque tinham algum direito divino de vencer o CBLOL e chegar àquele ponto, mas porque naquele tempo, a maioria das organizações brasileiras tinham a ciência de que ajudar uns aos outros era importante para ajudar o cenário.

“Na China chamamos isto de Ciclo Virtuoso. Você cria benefícios que ajudam a todos e isto volta para beneficiar você. Mas isto não funciona se não são todas as equipes colaborando para fechar o círculo. Não teria importado que time fosse para o Mundial este ano, o Brasil ainda teria passado dificuldades, mas pelo menos esforços foram feitos para tentar algo. A KaBuM passou semanas em bootcamp na Coréia, enquanto a T-ONE não.”

O que você falou antes, sobre atitudes mutuamente benéficas de organizações: se o Brasil se tornasse uma região principal, utilizando corretamente nosso potencial, isto ajudaria a região vizinha LATAM a melhorar, o que nos ajudaria, porque teríamos times melhores contra quem treinar, e assim continuaria. Isto criaria o Ciclo Virtuoso que você mencionou.

“Mas isto só funciona se você olha para as coisas de maneira abrangente, certo? Se seu objetivo como equipe é apenas vencer o CBLOL, o jeito mais efetivo de atingir a meta é sabotar a região enquanto se mantém um nível alto o suficiente. Mas se seu objetivo é ser o quão bom você pode ser internacionalmente, a única maneira que você não pode pensar… Eu realmente não quero mencionar times específicos, mas se você é forçado a treinar com times que se atrasam, saem mais cedo, ou times que criam um ambiente em que é impossível conseguir bons treinos, em certo ponto você pode excluí-los do seu meio e não treinar mais com eles, como eu e Alex fizemos na INTZ.”

O quanto dessa falta de compromisso vem dos jogadores?

“Sinceramente? Acho impossível dizer ‘todos os jogadores no Brasil são preguiçosos’. Digo, acho que quando vejo comentários no Twitter de torcedores dizendo que ‘jogadores brasileiros são preguiçosos’, não! Há jogadores no Brasil que realmente se importam com o jogo.”

Quantos jogadores você diria que se importam este tanto com o jogo?

“Bom… Como coach, você pode mais ou menos escolher os jogadores que você quer no seu time. Em 2017, o motivo que a INTZ teve mais sucesso do que o esperado por parte de fãs e analistas foi porque tínhamos jogadores compromissados com o sucesso. Tínhamos Jockster e micaO, que se importam muito com o jogo e estudam o jogo. Tínhamos Envy, que era novato e não parava de jogar. Turtle era alguém que a maioria considerava um lixo, quando ele entrou para a INTZ, mas ele se esforçou muito no jogo e sempre pedia mais ajuda para melhorar. O Ayel apenas joga League 18 horas por dia. Não sei se ele devia fazer isso, mas é a escolha dele.

Jockster e micaO, líderes esforçados e experientes

“O que quero dizer é, não foi impossível achar um grupo de cinco jogadores no Brasil que estavam determinados a ser o melhor que podiam. E algum destes jogadores não eram muito bons mecanicamente, mas tinham a mentalidade para obter sucesso. E enquanto é possível atingir sucesso sem boas mecânicas mas boa mentalidade e inteligência, não dá pra alcançar muito com apenas habilidade mecânica.

“Isto se aplica às organizações. Uma org não pode obter sucesso com uma mentalidade negativa, e você deve, como uma organização, excluir do seu meio times que trazem negatividade para os treinos. Se um time desiste aos 10 minutos toda vez que está atrás, ou se um time invade a selva no level 1 e dá alguns abates e desistem, não treine com eles! Isto é sempre uma opção que times têm. E um coach deve ajudar ao outro, sem precisar entregar muita informação, para que melhorias mútuas continuem e times continuem a melhorar por causa da melhoria constante dos treinos.

Você acha que o compromisso com o trabalho é equivalente no Brasil e na Europa, entre jogadores, ou você vê uma diferença?

“Acho que na Europa mais jogadores estão dispostos a chamar a atenção de colegas caso eles não estejam trabalhando duro o suficiente. Acho que no Brasil todo mundo tenta ser amigável, então é raro que um jogador vire para o outro e diga ‘ei! Você não está fazendo seu melhor, vamo trabalhar!’. Isto se torna uma responsabilidade do coach. Na Europa, percebi que pessoas vão te dar broncas na frente de todo mundo se você não está se entregando o suficiente. Às vezes conversam com você em particular também, mas alguém vai te chamar a atenção.

“No Brasil, sinto que é sempre a responsabilidade do coach fazer isso, mas nem todos percebem isso como o problema, às vezes não sabem o que fazer à respeito, especialmente se o jogador não é fácil de lidar, e talvez o coach não tenha nem mesmo a autoridade para fazê-lo. Por exemplo, em algumas situações, como um coach no Brasil, você não pode dizer ao seu jogador principal que ele precisa melhorar e trabalhar mais duro, pois este jogador pode escolher piorar mais como resposta.”

Quantos jogadores no Brasil você percebeu que não são totalmente focados, ou que a prioridade deles não é a carreira no League, mas sim lazer ou atividades alternativas?

“Eu trabalhei diretamente e diariamente com apenas 14 jogadores no Brasil. Dentre estes, todos foram bons profissionais, em geral. O que não significa que eles não gostassem de festejar, claro que curtiam bastante. Mas quando era a hora de treinar, estes 14 jogadores estariam presentes no horário combinado e dariam seu melhor para eles mesmos e seus colegas. Não sei se dei sorte, ou se a INTZ tem um bom processo seletivo, ou se o ambiente e as expectativas eram de um padrão maior.

“Mas sem trabalhar diretamente com outros jogadores é difícil eu criticar ou julgar sua ética de trabalho. Mas eu sei que há pelo menos três ou quatro jogadores no CBLOL que não dão a mínima para o jogo. Talvez há mais, talvez há menos, mas não acho que seja um problema tão epidêmico como as pessoas parecem achar. É fácil dizer que ‘pro players tem uma vida fácil, jogam no computador o dia inteiro, só vão pra festa, não respeitam os fãs’, coisas assim, não acho que seja verdade.

Dos 14 jogadores com quem Peter trabalhou no Brasil, todos eram bons profissionais

“Acho que a carreira de jogador de LoL não é fácil. Você tem que manter seu corpo bem, sua mente no lugar, um bom gameplay, você tem que jogar sob pressão, viver numa GH onde você tem que conviver com pessoas, interagir com elas e trabalhar nas suas diferenças diariamente. Além disso, você tem que fazer isto consistentemente por toda a temporada e mostrar alto nível nas fases eliminatórias, ou você pode perder tudo.

“Acredito que os jogadores que são preguiçosos, apesar de habilidosos, serão descartados rapidamente, pois não é fácil manter este nível de jogo.”

Você está dizendo que se um jogador não mantiver o nível, correrá o risco de perder o emprego, pois é um cenário competitivo. É o que acontece em ambientes competitivos. Porém, há uma teoria de que, por não haver muito investimento em novo talento da solo queue e das ligas semi profissionais, os jogadores do CBLOL se tornaram confortáveis em suas posições e não tentam melhorar além do nível atual pois aparenta não haver risco de perda de emprego. O que você pensa disso?

“Se você tem uma abordagem a curto prazo em relação ao jogo e ao sucesso, você não pode investir em jogadores jovens. Muitas vezes é difícil identificar quem será sua próxima estrela, seu próximo talento a longo prazo, então é mais seguro reciclar jogadores que já estão no cenário, mesmo que estejam há tempo demais. Acho que é mais uma questão de orgs arriscarem e investirem em talento quando ainda são muito jovens. A INTZ, por exemplo, segue a filosofia de procurar a próxima geração de talentos, mas nem sempre isto funciona.

“Eu não acho que seja uma questão de jogadores antigos se tornarem complacentes, acho que é mais uma questão de… Um jogador nunca vai recusar uma oferta de trabalho, ninguém tem uma oferta de emprego e recusa dizendo que ‘aquela pessoa é melhor que eu para este trabalho’, e esta oportunidade está lá para eles pois equipes estão à procura de sucesso a curto prazo, então acho que é mais uma responsabilidade delas por procurar estes jogadores do que dos jogadores em si.”

Mas times brasileiros que investiram em sucesso a curto prazo tiveram tudo exceto sucesso, enquanto times que investiram em novo talento e, teoricamente, sucesso a longo prazo, como a KaBuM, tiveram o melhor ano. Os times deveriam aprender com isto que este momento em que a liga brasileira está fraca é a hora de parar de reciclar talento e começar a investir em jogadores jovens para vencer a longo prazo?

“Acho que há menos risco agora e menos a se perder, com certeza, mas você tem que ter jogadores experientes e líderes no seu time. Acredito que você pode ter isto via seus treinadores ou seus jogadores. Nada substitui experiência como atributo. Talvez você não use cinco jogadores experientes, mas você tem que ter um ambiente onde há experiência o suficiente e onde há jogadores experientes que deleguem responsabilidades para o time. Por exemplo, Jockster em 2017 estabeleceu expectativas claras para Ayel e Envy. Se ele não fosse um líder para o time, talvez a equipe tivesse entrado em colapso. Mas por causa do exemplo que ele deu aos jogadores mais jovens sobre como trabalhar, o desenvolvimento deles foi melhor.

“Se sua comissão técnica é forte o suficiente, você pode investir em mais novo talento. Mas jogadores experientes trazem muito benefício também. No final, tudo se resume a construir o time certo e a comissão técnica certa com a filosofia certa.”

Você vê algum contraste entre a cultura do League brasileiro e o League europeu?

“Na Europa, eles gostam de contratar a comissão técnica primeiro. Na Splyce, eles me chamaram, me disseram que queriam que eu trabalhasse como head coach e que então eu poderia construir o elenco do zero. Eu não sei quantas orgs no Brasil fariam isto. Ouvi dizer que o Nuddle está voltando ao Brasil, e espero que ele possa construir o time dele assim. Mas como uma organização, você deve confiar na sua comissão o suficiente para deixá-los montar seu time.

O atual time de Peter Dun, a Splyce da LCS europeia

“Ou isto, ou você constrói a comissão em função dos jogadores, o que pode ser problemático se um coach não se encaixa na filosofia ideal para aquele elenco. Esta abordagem funciona melhor se a comissão tiver uma função mais analítica. A Keyd fez isso. Eles montaram o time deles em função dos jogadores e trouxeram uma comissão que faz um trabalho de apoio. Já a CNB tentou montar um time em função dos jogadores mas com um coach autoritário, Strong, o que ajudou o time a implodir.”

E a DFM, que veio de uma região anteriormente mais fraca, e se saiu melhor que a KaBuM?

“A DFM tem uma comissão técnica fortíssima, talvez a melhor das regiões emergentes. Não querendo desrespeitar a comissão da KBM, que tenho certeza que também é competente. Mas times japoneses também têm a vantagem geográfica. Eles treinam contra times asiáticos, às vezes de regiões grandes, então eles usufruem da polinização cruzada de ideias e isso contribui muito para o sucesso deles, é claro.”

Em seu TwitLonger, Ranger diz que comissões técnicas no Brasil são fracas. Você concorda?

“Vou te contar uma história sobre uma equipe brasileira que foi a um torneio internacional. Não a INTZ. Esta equipe me pediu para ajudar a marcar treinos com times chineses. Eu os passei contatos detalhados, os times chineses concordaram em treinar com este time brasileiro por uma sessão e, se fosse um bom treino, talvez ofereceriam ainda mais oportunidades. Mas a comissão do time brasileiro nem mesmo entrou em contato com nenhum dos times chineses. O coach de um destes times entrou em contato comigo e me perguntou porque eu estava desperdiçando o tempo dele, me dizendo que tinha marcado um período de tempo para treinar com o time brasileiro, e perguntou se os brasileiros eram profissionais.

“Por causa disso, é provável que se eu contactar este coach no futuro, não vou conseguir marcar um treino com ele para o meu time. Porque este time brasileiro resolveu não usar o contato que foi dado para eles treinarem com times de alto nível.

“É mesmo uma história triste. Eu tenho outra história também. Quando me tornei coach da Splyce, fiz um acordo com um time brasileiro que, no meu tempo livre, ajudaria a comissão deles, conversando com eles e os instruindo. Não tinha nem dinheiro envolvido, era algo voluntário, uma hora por semana, porque tenho interesse em ajudar o desenvolvimento de coaches. Tivemos 12 compromissos marcados para eu conversar com o coach deste time brasileiro. Três vezes ele apareceu na hora marcada, três vezes se atrasou e seis vezes não apareceu, sem sequer avisar. As únicas vezes em que apareceu foram logo depois de derrotas no CBLOL.

“Acho que definitivamente há bons coaches no Brasil. Dionrray é um bom coach, acho que Lucas Pierre [Maestro] é um bom coach novato, apesar da temporada difícil para ele. Há outros bons também. Eles têm bom conhecimento sobre o jogo, o que não quer dizer necessariamente que sejam bons em treinar jogadores. Mas para melhorar isto, times podem enviá-los a cursos de coaching e administração.

“Então não acho que as comissões técnicas no Brasil sejam fracas, mas talvez às vezes eles não têm a experiência para lidar com certos tipos de jogadores e oferecer a liderança que deviam. Além disso, times deviam pensar sobre como montar seus times melhor. Você não pode contratar um coach autoritário para complementar um elenco estrelado, mas você deve fazê-lo se tiver um time jovem.

“Por isso a KaBuM venceu os dois splits este ano: eles montaram o elenco certo e colocaram a comissão certa com a filosofia certa para jogar em função de novas estrelas.”

Ranger, jogador da selva da KaBuM, escreveu um TwitLonger polêmico após a eliminação do Mundial, no qual culpou a todos exceto aos jogadores pelos problemas do CBLOL

Sobre sua história do treino com os chineses. Você disse que perguntaram se os brasileiros são profissionais. Isso traz à superfície outra pergunta sobre a cultura do League brasileiro. Muitos parecem ter a impressão de que muitos envolvidos no cenário não percebem que estão em um ambiente competitivo e profissional, mas pensam que estão apenas jogando um jogo. Você acha que isto é verdade?

“Isso é difícil de dizer pois a minha história especificamente não é de responsabilidade dos jogadores. Marcar treinos não é responsabilidade dos jogadores.

“Mas vou dizer o seguinte: se você quer ter sucesso, tem que haver um ambiente profissional, certo? Como um coach, ou como jogadores de um time, ou como o dono de uma organização, você pode decidir ‘nós vamos criar um ambiente muito profissional’. Você pode montar este ambiente e estabelecer esta expectativa. Isto significa que se você tem este tipo de ambiente, você terá sucesso e promoverá este tipo de ambiente para o resto dos times. Se um time se atrasa para o treino, você pode dizer a eles que não treinará com eles mais.

“Essa coisa de profissionalismo… Muitos jogadores no Brasil são muito jovens, então não é apenas a responsabilidade dos jogadores ser profissionais sozinhos, mas também dos coaches e das organizações, que têm a responsabilidade de estabelecer limites e expectativas para o que é comportamento adequado. Se um jogador tem entre 17 e 21 anos de idade, não podemos esperar que eles simplesmente serão profissionais, temos que esperar que a parte mais alta da hierarquia imponha as expectativas de profissionalismo.

“Se continuarmos culpando os jogadores, nos privamos de ir atrás de quem realmente deveria estar estabelecendo padrões de profissionalismo.

“O jeito de melhorar o cenário brasileiro e evitar humilhações futuras em eventos internacionais é cobrar também das comissões técnicas e das organizações. E não se trata só de mandar os jogadores irem para a cama às dez e acordarem às oito, se trata de entender com quem você está trabalhando e quais são as coisas que fazem do ambiente um ambiente profissional e produtivo diariamente.”

  1. Excelente matéria. Quando começou o CBLOL eu assistia todos os jogos muitas das vezes deixava de sair para acompanha o cenário, este foi o primeiro ano que não assistir nem o primeiro split e nem do segundo. O cenário brasileiro está morto. Jogadores mimados e organizações mercenárias.

    Eu companho o cenário Europeu, Americano e Coreano, o cenário brasileiro está morto e chegara um dia e espero que seja logo que todos os torcedores brasileiros veja que realmente não vale a pena da um centavo para este cenário miserável que é o cenário brasileiro.

  2. Não vejo motivo para se martirizarem tanto pelo ocorrido. O trecho da RC já havia sido removido, e a entrevista foi divulgada com pequenas adaptações, não?

    Pessoalmente, eu acho difícil o trabalho jornalístico na internet através do apoio da comunidade porque existe uma briga de ego muito grande, em que todo mundo é jornalista e todo mundo entende sobre tudo. Aí sempre sobra a cagação de regra e a lenha na fogueira de quem quer ver o circo pegar fogo.
    Não acho nem que valha discutir sobre ética neste caso porque o conteúdo não está enviesado. Perto do que muitos outros sites brasileiros fizeram e não se retrataram, acho que vocês fizeram mais do que deviam ao criar um post de desculpas.

    Enfim, força pra equipe aí, e continuem o bom trabalho.

  3. Melhor Coach que já passou por aqui, realmente o CBLOL não merece esse cara. Aposto que ele foi bem eufemista nessas palavras.
    E sobre os investimentos: tem que vir de cima! Primeiro com uma organização que pensa a longo prazo e com mentalidade profissional, depois com uma Comissão Técnica Sólida e por fim jogadores bons e disciplinados. A INTZ tinha isso. A PAIN 2015 tinha isso. Faltam organizações assim no Brasil.
    Faltam também competições paralelas ao CBLOL para estimulaer as Organizações a terem mais jogadores pra disputá-las.
    Já está na hora de treinarmos com o LATAM por exemplo.

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