Nada a perder, tudo para provar

Nada a perder, tudo para provar

– Vamos entrar então? São quase onze, acho que já podemos começar.

Adentrava a GH por trás, pela rota da cozinha. O cheiro suave de feijão caseiro temperado com uma pitada de sal e uma folha de louro já invadia gentilmente nossas narinas.

Era 23 de março de 2018, uma sexta-feira. Em torno das quinze para as onze da manhã.

O assunto do dia era o novo espaço da KaBuM em São Paulo. A estrutura que fora uma vez em Limeira, tinha sido mudada no início do mês para a capital paulista. Durante boa parte da campanha do primeiro split os meninos eram obrigados a viajar quase 150 cansativos quilômetros para chegar ao estúdio, e mesmo assim conseguiram ganhar de todos os times que enfrentaram no CBLoL, com exceção da Vivo Keyd.

Até aquele dia, eles não sabiam o que viria pela frente. Eles não sabiam se, naquela semana, quem ganharia o equivalente a semi-final seria a Red ou a Keyd, mas naquele dia mesmo os murmúrios na sala vindo de Marcelo “Riyev” Carrara e Matheus “Dynquedo” Rossini (mais tarde abertamente comentados) já explicitavam a vontade de disputar contra o único time que não lhes dera espaço para uma vitória durante a Fase de Pontos.

Por ter uma line composta por jogadores novos nos playoffs, muitos não imaginavam que justamente os alaranjados iriam direto para a final. Da mesma forma que, no início do split, ninguém imaginava que a torcida mais tradicional do país seria rebaixada. Aliás, as apostas em janeiro de 2018 apontavam justamente o contrário.

Palpite dos Casters em relação ao primeiro split, por LoL E-Sports BR, em Janeiro de 2018.

Nos assentamos em frente a Guilherme Fonte, Dynquedo, Riyev e Nuddle. Foram cerca de cinco ou seis minutos até todos se organizarem e começarem a efetivamente fazer perguntas.

Começou devagar. Roni inaugurou a sessão. Ergueu suas mãos, apresentou-se e fez sua primeira pergunta, direcionada ao diretor de E-Sports da empresa, Guilherme Fonte, e aos jogadores.

A partir daí a coletiva tomou seu rumo. Dois ou três segundos após as respostas finais de cada entrevistado, mais uma mão se erguia e mais uma série de questões eram levantadas.

E em meio a tantos diálogos, tantas perguntas, tantas indas e vindas verbais repletas de diferentes sotaques e pequenos dialetos em nossa língua nativa, pousei meus olhos em Nuddle, que parecia se atentar expressivamente mais que os demais a cada olhar e a cada palavra.

Seus pés, descalços, tocavam o chão com firmeza. E embora o esforço existisse, só era perceptível através da análise, pois superficialmente, a tranquilidade pairava sobre sua face.

Percebia que as perguntas eram direcionadas mais aos jogadores do que a ele próprio, uma vez que poucos pareciam estar interessados em formular questões em inglês, embora este soubesse responder a maioria delas com perfeição.

Por vezes, ao final de respostas em português de seus companheiros, erguia uma de suas mãos em menção a fazer comentários adicionais, de coerência notável.

Sté… não vai fazer perguntas? – sussurrou Vitor, me cutucando com o cotovelo.

Ainda não, Vi – sussurrei de volta. –, acho que achei o que queria.

De fato, encontrara. Esperei a coletiva acabar, tomando nota dos principais pontos que precisaria abordar mais tarde para a construção do texto pré-final, e recolhi minhas coisas.

Levantamos, todos. O tour pela nova GH começaria em segundos. Meus olhos, porém, voltaram-se para Vitor, que entendeu a menção implícita em meus olhos demonstrando que eu ficaria ali mais um pouco. Ele aguardou.

“Com licença, eu estava pensando…”, disse me aproximando de Nuddle. “Como foi que aprendeu português tão rápido?”, perguntei em inglês.

“A língua de vocês se assemelha ao francês, e eu entendo francês”, respondeu com um sorriso, em tom amigável.

Quem via seu sorriso se abrindo daquela forma tão facilmente não imaginava a forma rigorosa que eram seus treinos. A disciplina trazida pelo canadense era fato comentado por todos na organização, e um grande motivo de orgulho, afinal este foi um ponto chave na melhora do desempenho dos players tanto dentro como fora do jogo ao longo do split.

Sua carreira como coach começou logo após sofrer uma lesão grave no ombro direito. Antes de entrar para os esportes eletrônicos, Jean-Francois se dedicava a outras modalidades do atletismo, voltadas ao estilo tradicional. Ele tem experiência com hóquei de gelo e beisebol. Durante o tempo que estava lesionado, não quis abrir mão do competitivo, e assim, passou a buscar uma forma de continuar a exercê-lo mesmo sem poder fazer grandes esforços físicos.

“Estou sempre lendo alguma coisa, sempre procurando aprender algo novo e aprimorar”, conta.

Em pouco tempo, Jean passou a compreender mais sobre League of Legends, e resolveu combinar isso com seu amor a psicologia.

A forma como o canadense tinha ido parar na organização brasileira KaBuM E-Sports era um segredo guardado a sete chaves por Fonte. “Um dia eu simplesmente abri meu e-mail e… estava lá. O convite para ser head coach do time estava lá”, conta Jean-Francois. Ao ser questionado a respeito, tudo que Fonte tem a dizer é reafirmar o sigilo envolto na forma com a qual descobriu e recrutou Nuddle.

E no dia 24 de março, Keyd superou Red Canids por 3 a 2, em série acirrada, conforme o desejo dos finalistas. Os alarajados teriam a chance de enfrentar os guerreiros no palco mais uma vez.

O renascimento de um campeão

Foto por Stéfanie Neuman

KaBuM, KaBuM, KaBuM!

O dia 7 de abril tinha finalmente chegado. Com berros e clamores adentramos o estúdio, cujos rostos que compunham a torcida não escondiam o semblante da alegria em meio aos brados. De braços para o alto e batecos em movimento, assim nos receberam na partida do quinto jogo.

“Vocês tem dez minutos”, instruíram à imprensa.

A série tinha sido longa, a MD5 estava sendo explorada até seu último jogo. O desempate de agora era decisivo para definir quem iria para o Mid-Season Invitational disputar o título na Alemanha, em maio deste ano.

KaBuM, KaBuM, KaBuM!”, berravam das arquibancadas.

Alguns olhares perdidos enroupados com camisetas da CNB se cruzavam em meio ao público, tal como os de torcedores da Vivo Keyd, que urravam pedindo força aos guerreiros, em seu último resquício de esperança.

JÁ ACABOU O JOGO, VAI DAR KABUM!!”, urravam da lateral direita.

VAI, TITAAAN!!”, bradavam da esquerda.

EU ACREDITO!!”, soltavam pelo meio em solidariedade aos guerreiros.

Não deu outra. Aos 26 minutos de jogo Titan ergue-se, triunfante. Em seus olhos, a mais nítida surpresa envolta de retumbante adrenalina.

O CAMPEÃO VOLTOU!!”, gritavam, em menção à disputa internacional há quatro anos atrás.

Nuddle sorria, espontâneo. Uma cena raríssima para quem acompanha os jogos de perto e conhece o tradicional semblante sério e concentrado do head coach. Mas não há como negar, a situação pedia por esse sorriso. Os meninos levantaram em um pulo, tomados de grande euforia, prontos para se abraçar e comemorar.

Foto por Stéfanie Neuman

A sensação que tomava o estúdio, naquele momento, era similar a de quem acompanhou a organização em 2014. O time que víamos no palco agora anunciava um renascimento ressonante. Não se parecia nem um pouco com a KaBuM rebaixada que vimos ano passado.

Diretamente do Circuito Desafiante para o topo do primeiro split do CBLoL, os alaranjados executaram uma campanha impecável, e na Grande Final conseguiram superar o único time para o qual ainda não haviam vencido nos quase quatro meses de disputa, a Vivo Keyd.

Eles estavam agora classificados para o torneio Mid-Season Invitational, que aconteceria em Berlim a partir do dia 03 de maio.

Foto por Stéfanie Neuman

Ainda no dia 7, a Riot abriu espaço para uma coletiva de imprensa, dentro do próprio estúdio onde são transmitidos os jogos. Lá, os players se abriram a respeito da participação de Nuddle na equipe.

“As mudanças não só para essa final como para todo o split e o Circuito Desafiante foram mudanças que aconteceram fora do jogo”, conta Zantins. “Tudo começou fora do jogo, não só a gente mas a maioria dos times por não ser tão profissional quanto lá fora a gente não levava tão a sério os treinos, então isso era uma barreira para a nossa evolução, é uma barreira como um todo pra gente evoluir no competitivo de LoL, e isso é uma coisa que o Jean trouxe muito pra gente, além das estratégias dentro do jogo, ele nos trouxe uma mentalidade diferente – uma mentalidade de levar mais a sério os treinos, uma mentalidade de absorver melhor tudo, aproveitar ao máximo as streams e o nosso treino, pra gente não passar por coisas que podemos evitar no stage, que é onde vale tudo. Então acho que o principal fator foi esse. Mudarmos nossa mentalidade, agirmos como profissionais, levar mais a sério o jogo.”

Foto por Stéfanie Neuman

“Uma filosofia que ele (Nuddle) trouxe lá de fora é essa de ‘jogar o LoL certo’. Em todos os times que passei a gente pensava, ‘pô, isso funciona na Coréia mas no Brasil não’. A gente vê, principalmente, junglers do Brasil fazendo muito tease, muitas jogadas arriscadas e inesperadas, e esse tipo de coisa coloca o Brasil pra trás, desacelera nosso crescimento e a gente trabalha muito nisso. É difícil a gente fazer coisa arriscada, tanto que a gente teve o early game mais controlado do CBLoL, e acho que com essas características, se continuarmos trabalhando assim, a gente pode vencer o MSI sim.”, disse o jungler Filipe “Ranger” Brombilla.

De acordo com o próprio head-coach Nuddle, “Disciplina e respeito foram as palavras-chave para todo o nosso split”.

E assim encerrou-se a final. Após quatro anos, a taça era novamente da KaBuM.

A semente da esperança havia sido plantada…

Foto por Riot Games

Os torcedores brasileiros amanheceram esperançosos no dia 4 de maio. Logo às nove horas da manhã do horário de Brasília teriamos o primeiro jogo de nossos representantes contra uma equipe japonesa. Fãs do Brasil inteiro encontravam-se a postos no Twitter usando a hashtag do torneio.

O MSI 2018 começou bem para nossos estreantes no mundialito. Venceram a Pentagram aos 34 minutos na primeira partida, e com tranquilidade. A semente da esperança estava plantada.

Às onze da manhã, a KaBuM enfrentou a equipe australiana Dire Wolves pela primeira vez. Embora o early game estivesse indo bem, aos dez minutos de jogo, a DW garantiu dois dragões infernais e adquiriu vantagens o suficiente para cair matando em cima dos brasileiros. Entre pickoffs e team fights, próximo dos trinta minutos de jogo o time da Oceania superou nossos estreantes, que se mostraram visivelmente abalados.

A KaBuM tinha agora 1 vitória e 1 derrota. Nossos olhos e esperanças se voltaram ao último jogo do dia, que aconteceria as 13hs contra a SuperMassive.

Quem assistiu aos jogos com atenção, focando não só nas jogadas como também na expressão dos jogadores ao longo da partida, percebeu o sentimento notório de pressão e descrença na própria capacidade de superar o time turco.

Não deu outra. Próximo dos vinte e dois minutos de jogo, os representantes da Turquia triunfaram sobre os brasileiros, que sofreram 21 abates e não conseguiram finalizar nenhuma torre ao longo da partida inteira, reduzindo drasticamente as chances de classificação da KaBuM E-Sports.

Foto por Riot Games

Conversando mais tarde com o toplaner Lucas “Zantins” Zanqueta, este se manifestou a respeito do sentimento após os jogos de sexta-feira. “Nos sentimos bastante frustrados depois da derrota arrebatadora contra a SuperMassive, era o nosso adversário direto para classificação e perder da forma como perdemos – logo após a tropeçada contra a Dire Wolves, foi muito complicado. Mas, colocamos a cabeça no lugar, conversamos bastante e identificamos nossos erros para não cometermos de novo no domingo. Então, apesar de dependermos de resultados para classificar, entramos focados em fazer nossa parte e dar nosso melhor.”

E, de fato, isso deu um gás diferente para os garotos para os jogos de domingo. Mas ninguém poderia garantir que isso seria o suficiente.

E em meio a seca, ela foi regada…

Foto por Riot Games

O primeiro jogo de domingo começou às sete horas da manhã no Brasil, meio-dia em Berlim. Logando no Twitter era possível perceber a divisão clara de opiniões a respeito dos possíveis desdobramentos do dia.

Parte dos torcedores acreditavam que a Dire Wolves sucumbiria nos jogos contra os brasileiros e os turcos e, assim, haveria a possibilidade de uma futura classificação para a KaBuM. Já a outra parte, assumia que nossos sonhos seriam estilhaçados, como tem sido nos últimos anos.

Em meio a tantas opiniões, fui atrás de Jean-Francois “Nuddle” Caron, novamente, para saber qual o mindset estabelecido para os jogos do dia 6 de maio. “Nossa mentalidade para o último dia foi a de que não tínhamos nada a perder, mas tudo para provar. Nós já estávamos matematicamente quase eliminados, então entramos sem stress, com a mentalidade de jogar o nosso jogo.”

Ao ser questionado a respeito de preparação e pressão, o head coach afirmou “A preparação não mudou muito. Muita soloQ, muitas scrims e várias reuniões para terminar nossa preparação. Acho que a única mudança que usamos foi baseada em torno de um novo trabalho com as opções de campeões e uma pequena troca de mentalidade, entrando sem qualquer pressão.”

Foto por Michal Konkol (Riot Games)

A grande verdade é que, após tantas derrotas, gás era outro, o abalo transformou-se em força. E, com menos pressão, a execução seria menos árdua, por mais que mesmo frente a iminente possibilidade de não se classificar eles claramente queriam dar o seu melhor e fazer jus ao título de campeões nacionais. O contexto de sua atuação no mundialito era agora outro. “Nosso objetivo era passar. Mas, depois de um primeiro dia desastroso, as coisas ficaram muito difíceis. Então, no final, é uma experiência para aprender”, complementa Jean-Francois.

Foto por Riot Games

Às sete horas da manhã, KaBuM deu um show em cima da Dire Wolves, fazendo um ace e destruindo o Nexus aos 34 minutos, com 15 abates a 8. O próximo jogo do dia, também foi da KaBuM, às oito horas da manhã o confronto contra Pentagram, cujo resultado foi uma vitória dominante e impecável dos nossos representantes brasileiros. Aos 14 minutos de jogo já contabilizavam 11 abates a 2, e aos 30 minutos os alaranjados fizeram um ace e destruíram o Nexus. Esse gás todo reacendeu a chama nos corações dos torcedores, que viam uma KaBuM mais próxima a uma possível classificação.

E então, estraçalhada.

Foto por Riot Games

O próximo adversário seria enfrentado às dez horas da manhã, pelo horário de Brasília. Mas, havia um porém.

A classificação da KaBuM E-Sports dependia não só de sua vitória contra os turcos às dez da manhã, mas também a sucumbição dos mesmos ao time australiano, Dire Wolves.

Às nove horas da manhã os turcos e os australianos se confrontariam no palco do MSI 2018, e para que a KaBuM tivesse uma chance, a vitória teria que ser da Dire Wolves – o que não aconteceu.

No confronto final os turcos já contabilizavam cinco vitórias, sendo assim, já estavam classificados no grupo B do mundialito. Ainda assim, os brasileiros deram um show, e encerraram o jogo aos 23 minutos, batendo o recorde de maior número de abates em tão pouco tempo na competição.

O último jogo foi mais um showmatch. Como não mudaria nada em relação à tabela, a SuperMassive já classificada decidiu jogar com jogadores invertendo rotas pra descontrair e esconder estratégias. Então, nós também fizemos picks descontraídos o que resultou em um jogo mais acelerado e menos tático, com bastante abates, o que acredito ser o estilo mais divertido para a galera assistir”, conta Zantins ao eInsider.

“Vencer nunca deve ser seu objetivo número 1. Entre em eventos internacionais como se fosse a última vez que você jogaria no LoL e faça o seu melhor”, diz Nuddle.

A saída de um mito

No dia oito de maio, Jean-Francois publicou em seu perfil oficial do Twitter que estaria deixando a organização brasileira.

Mais tarde, no mesmo dia, a KaBuM postou uma nota confirmando a saída do head-coach, “Após conversas e negociações para uma possível permanência, que era o interesse por parte da organização, Nuddle deixou claro que busca novos desafios em sua carreira, com preferência por atuações em equipes fora do Brasil, em regiões como Europa e América do Norte. O contrato do técnico com a KaBuM! e-Sports segue até 14 de junho, em razão do vínculo imigratório. No entanto, atendendo ao desejo do coach, a organização autorizou antecipadamente o início dos contatos com outras equipes.”

Foto por Michal Konkol (Riot Games)

Ao ser procurado pelo eInsider, Nuddle acrescentou sobre sua saída, “Eu espero que um bom treinador possa me substituir. Na vida, uma das coisas mais difíceis do mundo é substituir alguém que deixou a sua marca, e se redefinir do seu jeito. Algumas pessoas já me compararam ao Peter Dunn, e eu disse com todo respeito que somos completamente diferentes por termos estilos diferentes. Eu não queria ser o novo Peter Dunn, eu queria ser eu mesmo. Sempre veja a vida desse jeito, nunca seja como a pessoa que estava lá antes de você, seja mais.”

“Ele trouxe muitos ideais para a gente sobre como encarar o jogo, de como atitudes fora do jogo podem impactar dentro, e esse foi um grande ponto de mudança na nossa equipe. Passamos a levar os treinos mais a sério e, consequentemente, melhorarmos como pessoas e jogadores”, conta Zantins.

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