O bom, o mau e o feio – Uma análise das finais da EVO

Autor: Moreno Valério

O final de semana passou e com ele, a EVO. O maior campeonato de jogos de luta foi assistido por milhares de pessoas, ao longo de nove canais na twitch (de transmissões oficiais), três canais de televisão e os nove jogos da lineup, sem contar os campeonatos paralelos (que possuía até o inédito Dragon Ball Fighter Z). Como todo ano, nomes foram consagrados, outros ficaram pelo caminho, e o público assistiu aos melhores dos melhores em partidas de tirar o fôlego.

Aqui no eInsider a atenção será voltada à três jogos. O novíssimo Injustice 2, em sua primeira EVO; a despedida de Ultimate Marvel vs Capcom 3 – Marvel vs Capcom Infinite chega em setembro desse ano; e o maior nome de todos, Street Fighter V.

INJUSTICE 2

Injustice 2 teve suas finais dignas de jogos recém-lançados: com um cenário e, mais especialmente, um meta em formação. Se, diferente de antigamente, os jogos hoje em dia podem ser patcheados com facilidade e isso pode alterar o meta, é preciso entender que primeiro ele precisa se formar, bugs precisam ser encontrados, loopholes também (os famosos combos infinitos, por exemplo) para aí sim o jogo ser alterado e, geralmente, de uma maneira que influencia o meta. Ou seja, especialmente os personagens que são utilizados.

Mas o que aconteceu com Injustice 2 especificamente é um dos melhores momentos de se presenciar com jogos de luta e seus campeonatos: os jogadores conhecem o jogo, mas não tão a fundo quanto outros, e há uma diversidade de personagens, descobertas de combos e links que não parecia funcionar. Provavelmente a maior diversidade de personagens no top 8 dos campeonatos da EVO 2017 estava em Injustice: apareceram Batman, Robin, Red Hood, Catwoman, Aquaman, Flash, Superman, Poison Ivy e Green Lantern. Isso é representado pela EVO ser o terceiro Major e ser vencido pelo terceiro personagem diferente e pelo terceiro jogador diferente (Combo Breaker com Black Adam e CEO com Scarecrow).

E se tem um elemento que pode alterar a dinâmica, ainda mais com novos jogos, são as zebras, e não é exagerar dizer que a maior zebra da EVO foi SonicFox não vencer Injustice 2. Ele chegou ao top 8 pela upper bracket, e logo perdeu para HoneyBee. Até aí é normal, isso já havia acontecido antes em outras edições da EVO, onde SonicFox fazia seu caminho pelo lado da repescagem até a final. Mas dessa vez ele foi parado por Semij e de uma maneira singular: 3-0, praticamente sem chances para o maior campeão de jogos da Netherrealm.  O rushdown e os mix-ups da Catwoman de Smij deixaram pouca opção par Sonic. Quando ele parecia se ajustar, na terceira e decisiva partida, não conseguiu manter a vantagem e logo foi batido da mesma forma que nos dois rounds anteriores.

Sem o grande nome na mistura, o título parecia mais palpável para todos os integrantes restantes.  A impressão é que um conto aconteceria onde Honeybee seria o astro principal. Após mandar SonicFox para a lower bracket, ele mesmo acabou indo parar la após perder na upper final para Dragon. Após derrotar Theo na lower final, utilizando seu Flash, a virada parecia iminente contra Dragon na Grand final. Honeybee declarou não acreditar em seu Flash antes da EVO começar e, talvez por isso, tenha trocado para Aquaman no momento decisivo. A mirror match acabou sendo desfavorável para ele e Dragon mostrou um maior conhecimento do personagem e seus combos, abrindo 2 a 0 no placar e ficando a uma vitória do título. Atendendo a pedidos do público, dos comentaristas e até do chat, Honeybee foi ovacionado ao escolher  o rapidinho. E isso pareceu impactar na hora seu rival, permitindo o empate de maneira rápida, porém suada. Quando estava há um jogo de resetar os brackets, Honeybee foi novamente superado por Dragon, que mostrou se adaptar rapidamente e pareceu levar o último jogo que faltava com facilidade, fazendo o que Aquaman faz de melhor: manter o oponente à distância e causando dano enquanto isso.

Com isso, Dragon desbancou os favoritos e cravou seu nome como o primeiro campeão de Injustice 2 da EVO.

ULTIMATE MARVEL VS CAPCOM 3

O último torneio de Marvel vs Capcom 3 da EVO começou de maneira melancólica. Às 8 da manhã do horário local de Las Vegas, a arena de Mandala Bay ainda estava vazia e quando aparecia uma visão geral, mais parecia um momento de aquecimento e prática do que o campeonato em si. Longe daqueles momentos de glória com cânticos para os finalistas, daquela explosão de emoção de narradores e chat, o que se viu foi a despedida no maior nível possível de Marvel.

No top 8 apenas um dos candidatos para o bicampeonato. Chris G e sua Morrigan vinham sedentos pelo bicampeonato back to back. Após mandar Joey D para a repescagem, o campeão enfrentaria na upper finals um dos nomes mais votados pela comunidade: RyanLV. Ryan apresentou um jogo parecido com o de Chris, ao utilizar o spam de Soulfist da Morrigan. A diferença é que enquanto Chris G começa com ela, Ryan aposta em Chun-Li para iniciar e somente recorre à Morrigan caso necessário. No terceiro slot, ambos apresentam perigo: Vergil (Chris) e Phoenix (Ryan). Porém a consistência e adaptabilidade de Ryan foram fortes demais e mandaram Chris G para a lower.

No lado da repescagem, dois nomes se destacaram e chegaram às semifinais: Paradigm e PC Marvel God. Desconhecido por muitos, o canadense Marvel God trazia uma Phoenix que não tinha medo de utilizar seus poderes e suas barras de especiais antes de virar Dark Phoenix. Talvez por isso tenha surpreendido muita gente. Já Paradigm era o cara da adaptação. Usando seu Haggar como point, mostrava  conhecimento sobre diversos personagens para montar equipes específicas para combater as estratrégias de seus oponentes. Phoenix? Lá vem Arthur e Rocket Raccoon. Vergil? Espere Dormammu e Dr Doom. E foi  nas quartas de final que Paradigm mostrou que seu Dormammu não barganha, realizando uma das viradas mais inesperadas e cluch de todas as finais. Quando estava 2 a 2, ou seja, no ponto decisivo diante de Joey D, quando todo mundo já o eliminava, ele mostrou que em Marvel nunca se pode vacilar. Mesmo sem X-Factor, seu Dormammu conseguiu finalizar dois oponentes ao mesmo tempo e garantir sua passagem de fase. Já nas semis, vimos que mesmo tendo times com combates especiais, Paradigm não conseguiu passar por Marvel God. Com direito a Phoenix sem vida e a 1 hit da morte, o canadense não pestanejou e não deu chances para nenhum contato, passando paras as finais da lower, contra Chris G.

A rota do canadense acabou contra o campeão de 2016. Mesmo perdendo um jogo (em que a Phoenix foi utilizada sem usar sua forma mais poderosa), Chris G mostrou paciência e preparo para encarar o responsável por eliminar diversos favoritos. Com o 3 a 1 no placar, Chris tinha sua chance de revanche contra Ryan nas Grand Finals.

Nas grand finals parecia que seria uma varrida. Ryan abriu 2 a 0 sem dificuldades. Porém, Chris G mostrou porque ainda era o campeão. Empatou a partida, com o final de sua segunda vitória sendo dramática e aproveitando de erros do adversário. Quando pareceu que haveria um reset da final, Ryan mostrou o porquê dos comentários de outros players sobre seu nível. Chegou ao fim com sua Phoenix, as 5 barras cheias, e dessa vez não deu chances para o Vergil de Chris, e sua Dark Phoenix o alçou ao título.

De maneira cíclica, a Dark Phoenix, que ganhou a primeira EVO nas mãos de Jay Viscant, volta a ser campeã, no último ano de Marvel. Além disso, ao longo das sete competições, foram sete campeões diferentes. Por fim, a Chun-Li foi campeã pela primeira vez em um time. E a personagem não aparecia em um título da EVO desde Street Fighter Third Strike, em 2008 com Nuki e em 2009 no mesmo jogo, mas em modo 2 v 2, nas mãos de Justin Wong, quando fazia dupla com Issei.

STREET FIGHTER V

O main event da EVO começou com três americanos no top 8, feito que não acontecia desde 2010, quando ainda era Super Street Fighter IV, Mike Ross ainda competia com seu Honda e foram cinco entre os oito melhores, com direito a um vice-campeonato de Ricky Ortiz.

A upper tinha 50% de americanos, com Punk e Nuckledu, dois nomes de peso. Porém, Punk foi o unico que avançou e chegou até as grand finals. Nuckledu caiu para a repescagem na primeira partida da noite. Do lado da lower bracket, Fchamp fazia as honras da casa, miraculosamente com seu Dhalsim. Champ contrariou a todas as estatísticas chegando longe com seu personagem que não está entre os melhores do jogo. O jogador estava feliz por ter chegado no top 8 e queria mostrar todo o seu potencial.

Mas os sonhos americanos de ver sua nação no topo do evento de Street Fighter – que só ocorreu em 2002, na primeira edição da EVO, com AfroCole em Super Street Fighter II Turbo – seria arruinado por um único nome: Tokido.

Um dos deuses japoneses dos fighting games, Tokido tem 32 anos e muita experiência em campeonatos e até na própria EVO. O fato de estar do lado da lower não diminuiu a determinação do responsável pela “murderface”. A primeira luta, justamente contra Fchamp mostrou o nível que se esperava das finais. As reads de Tokido se mostraram essenciais para a sua vitória, culminando na leitura do V-reversal de um Dhalsim no canto do cenário, o parry dado por Tokido abriu espaço para sua caminhada. Era um momento em que Fchamp podia fechar a série e mandar Tokido para casa, mas o japonês manteve seu sangue frio e foi escalando seu caminho para as finais.

No meio do caminho encontrou o outro americano, Nuckledu. Nuckledu e seu Guile chegaram a abrir o placar e ganhar um game de Tokido. Entretanto, as leituras e adaptações de Tokido mostraram porque ele estava lá. Uma vez na mente de seu oponente, foi uma questão de tempo para que ele fechasse a partida em 3 a 1 e avançasse para as semifinais da lower. Nem Itabashi e seu Zangief nas semis, ou Kazunoko e sua Cammy pararam o japonês. Mesmo a personagem britânica já ter sido um problema para Tokido, essa vez não houve espaço para Kazunoko trabalhar e surpreender.

E com uma mentalidade preparada e mostrando seu foco, Tokido avançou para as grand finals, onde enfrentaria a jovem sensação de 18 anos, o Punk. Este mesmo que o mandou para a lower. Era a revanche do japonês e ele seria responsável por eliminar todos os americanos do torneio que alguns chegaram a apontar um favoritismo dos EUA no top 8.

O que se viu nas finais foi o Street Fighter V em seu maior nível. Se o jogo havia sido criticado esse ano, a grande maioria dos espectadores reconheceu o grande nível que o jogo apresenta. Tokido começou na frente, mas Punk logo empatou. O que se viu em seguida, apesar do resultado de 3 a 1 para Tokido forçando o reset das finais, foram partidas equlibradas, onde todo erro era praticamente punido pelo adversário. Com a vitória de Tokido, o reset das finais aconteceu, e o golpe foi grande para Punk. Embora o americano tenha garantido alguns rounds, já era tarde e Tokido conseguia ler e surpreender seu adversário. O 3 a 0 na finalíssima rendeu a Tokido seu primeiro título da EVO em Street Fighter (como principal jogo).

Após a vitória, Tokido concedeu entrevista a ESPN, que transmitia as finais nos EUA. Além da alegria pela vitória, o campeão comentou sobre sua estratégia. Afirmou que sempre ficava treinando e isso não era o suficiente, que precisava estar na mente do oponente, controlar o adversário. E esse foi o diferencial de Tokido nas finais. A partir do momento em que ele conseguia estabelecer seu jogo, era difícil ver alguém conseguir voltar a ficar na frente dele.

Para encerrar, Tokido deixou a mensagem que todos podem absorver: “Fighting games are great”.

 

  1. Excelente matéria, Moreno. Fiquei com vontade de assistir tudo de novo só para ter a sensação de que Tokido realmente não falhou na noite. A luta mais difícil foi contra Itazan e logo após aquela vitória, tive a certeza de que ele seria campeão. Foi muito bom ver o ChrisG provar do seu próprio veneno e perceber que Injustice 2 saiu com uma qualidade bem acima do esperado pela comunidade.

  2. Punk visivelmente abalado no primeiro set da grand finals… punk tem apenas 18 anos… apesar de ter ganho varios campeonatos… evo é diferente .. e tokido na final cresce com a experiência …punk é um jogador genial .. mas a maturidade só com o tempo … belo review

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