Os problemas de League of Legends

Os problemas de League of Legends

A comunidade do League of Legends é extremamente ativa: Cada patch, cada mudança, cada campeão, runa ou item que é retirado ou adicionado ao jogo gera até semanas de discussão nos fóruns, no Reddit e em outras plataformas. O mais recente debate é sobre o estado do jogo em geral, e se ele está realmente morrendo, como alguns parecem acreditar.

Este tópico ganhou força nas últimas semanas após o respeitado AD Carry Doublelift, da Team Liquid, lançar um vídeo intitulado “As Desvantagens de um jogo em Constante Evolução”. Nele, o jogador fala sobre os problemas que ele vê no jogo atualmente e sobre como ele acredita que a Riot Games poderia melhorar a manutenção do League, sugerindo maior espaço de tempo entre atualizações e foco em buffar o que estiver fraco ao invés de nerfar o que estiver forte. O vídeo não é muito longo, não elabora tanto sobre os problemas ou as soluções, mas graças à atenção que Doublelift recebe do público norte americano, foi suficiente para gerar bate-boca na região NA, que depois rapidamente se espalhou para outros cantos do mundo.

(Acima: o vídeo “As Desvantagens de um jogo em constante evolução”, de Doublelift. Legendas em português disponíveis)

O CONTEXTO:

Dentre as reações ao vídeo em questão, as mais notáveis são a reflexão do popular streamer e ex-pro player Voyboy e a resposta do rioter Ghostcrawler (em português aqui).

Voyboy escreveu um texto que analisa os temas abordados por Doublelift ponto a ponto, oferecendo sua perspectiva para cada um deles e adicionando o que achou relevante, inclusive uma reclamação sobre o aumento na toxicidade dos jogadores. A declaração carrega um tom empático, em que o jogador tenta equilibrar nos argumentos o que é desejo da comunidade e o que é dever da Riot, além de levar em consideração que a comunidade é vasta e é composta por pessoas diferentes que esperam coisas diferentes do jogo, e que se divertem de formas diferentes. Mas isso não significa que Voy não deixou claro sua perspectiva sobre o assunto. Aliás, ficou bem evidente que discorda de Doublelift em vários pontos.

Enquanto Doublelift exaltou especialização (por exemplo se especializar em um campeão) como maior foco do jogo, Voyboy contra-argumentou que ainda há uma grande parte do público que prefere explorar o vasto conteúdo disponível. Além disso, destacou que, apesar de o patch 8.11 ter sido um desastre para atiradores, encorajou experimentação por parte dos jogadores. Voy também discordou da parte em que Doublelift pede foco em buffar o que estiver fraco, lembrando que isso geralmente causa o fenômeno “power creep”, em que conteúdo novo ou recentemente fortalecido gera obsolescência de conteúdo antigo ou não buffado.

Mas a ideia principal do vídeo de Doublelift é de que atualizações muito frequentes são prejudiciais ao jogo, de forma que forçam os jogadores profissionais a treinar incansavelmente em busca de decifrar cada meta e cada estratégia, negando-os tempo para fazer stream e explorar mais a fundo cada atualização. Nas palavras do jogador:

Se a Riot reduzisse a frequência com que atualizações são lançadas, jogadores profissionais teriam mais tempo para criar conteúdo [em plataformas como a twitch.tv e o youtube] e aumentariam o limite de habilidade esperado dos jogadores.

Parece um argumento sólido, mas em seu texto Voyboy aponta alguns buracos neste pensamento.

O primeiro é que, mesmo que a necessidade de treinos fosse menor, os melhores jogadores continuariam passando a maior parte do seu tempo praticando com o time, já que é a forma mais eficiente de ser a melhor equipe possível. O segundo é que a maioria dos jogadores profissionais não tem interesse em criar conteúdo, pelo menos como prioridade. O último é que um jogador que investisse grande parte do seu tempo em fazer stream ou vídeos possivelmente afetaria seu time negativamente, já que estaria focado em seu sucesso individual. Este ponto é delicado, e está mais aberto a interpretações. Com certeza há quem concorde que profissionais precisam de mais tempo para criar conteúdo, e que isso seria positivo para o jogo e para o público, assim como não há dúvidas de que muitos não apostariam nesta mudança.

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Voyboy, popular streamer americano, fez um longo post abordando o vídeo de Doublelift

 

A ESTRANHA RESPOSTA DA RIOT GAMES:

Ghostcrawler, o designer-chefe do League of Legends, respondeu em nome da Riot Games no fórum do site do jogo, também colocando ponto a ponto sua perspectiva e a da desenvolvedora, a fim de oferecer esclarecimentos à comunidade que não sabe em que direção o jogo está indo. O primeiro tema abordado por ele foi o “custo das mudanças”, sobre o qual enfatizou que a Riot não tem como objetivo fazer com que o esforço de um jogador para se aprimorar em algum estilo de jogo seja descartado a cada atualização, mas que isso acontece inevitavelmente.

Porém, ainda no primeiro tópico abordado, o texto começa a ficar bizarro. Ghostcrawler diz que coordena as equipes de design do jogo sempre com a filosofia de que, em algum lugar, perdido no tempo e espaço, há o League of Legends perfeito e que, mesmo que inalcançável, a equipe deve dar seu máximo para chegar o mais próximo possível desta forma final e ideal do jogo. Mas… o que é a visão da Riot do LoL ideal? Em nenhum momento o designer-chefe deu uma resposta para esta pergunta, e deixou muito em aberto: do que a Riot estaria disposta a abrir mão para alcançar o LoL perfeito? Do que ela não estaria disposta a abrir mão para alcançar o LoL perfeito? Será que a desenvolvedora vê o jogo ideal como palco para experimentação, ou como cenário para especialização? Como um jogo “for fun”, ou como um E-Sport onde a competição sobrepõe a diversão? A única coisa que esta declaração do Ghostcrawler nos disse é que ele ou a Riot (ou ambos) tem uma visão do League infalível, mas não nos mostrou o que é, nos fazendo sentir ainda mais cegos do que antes.

Depois de nos entregar este enigma que não pedimos, o rioter continua com os próximos tópicos, mas o texto continua vago. Ao falar sobre os objetivos da Riot ao fazer mudanças, basicamente repete o que Doublelift disse em seu vídeo sobre quais são as vantagens e desvantagens de atualizações frequentes e de atualizações espaçadas, mas defende que a frequência de atualizações não é o problema de League of Legends. Em seguida, fala sobre as mudanças de 2018 em geral, mas foge muito do assunto “atualização 8.11 / o apocalipse dos atiradores” e foca muito no que deu relativamente certo até agora, como a atualização das runas e dos itens de magos.

O resto do depoimento segue a mesma linha: Ghostcrawler escreve como se a Riot estivesse na defensiva, como se precisasse de uma desculpa para cada passo errado e evitando ao máximo tocar em assuntos delicados, ao invés de dar um posicionamento final sobre os tópicos em evidência. O texto dá a impressão de que a Riot está tão perdida quanto seu público. Mas ela não pode estar. A desenvolvedora de um jogo deve sempre estar um passo à frente do estado de seu produto, mas a Riot parece estar sendo vencida pelo próprio League of Legends. É necessário que a Riot tenha uma identidade para o jogo em mente, e que deixe bem claro para seu público qual é.

Porém, isto nos leva ao real problema de League of Legends, que ficou em evidência na discussão, mas acabou não sendo mencionado diretamente por Doublelift, Voyboy, nem Ghostcrawler: League of Legends não é mais um jogo de uma identidade só. Como constatou Voyboy em seu depoimento: a comunidade é vasta e é composta por pessoas diferentes que esperam coisas diferentes do jogo, e atualmente o jogo não reflete isso.

É a hora de a Riot Games encarar que a imensa comunidade do League of Legends não é mais só uma, mas um conglomerado de comunidades e culturas diferentes que querem, merecem e precisam de jogos diferentes. E é a hora de a Riot dar a cada grupo o game que cada grupo quer, merece e precisa, o que será abordado no segundo texto da série.

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